Podofagia


     Contava os dedos dos amantes. E não eram poucos. Os amantes. Os dedos eram sempre dez. De uma feita, depois de muita procura, Ana achou doze. Contava, recontava, da direita pra esquerda, da esquerda pra direita, do centro para fora. A conta era sempre a mesma, doze. Havia certa empáfia naquela soma. Uma superioridade não merecida. Ana fora bem clara: ou o excesso ou ela! O moço, meio para baixo depois da sentença, preferiu sua nata anomalia. Que vá! Dez eram ideais e deus nos livre de um número ímpar!
     Deus falhou e ela, no susto do resultado, contou nove em seus próprios pés. Ofegou e recontou. Nove, sem sinal de mais. Nascera perfeita, se lembrava bem. Ímpar em uma metade e par por inteiro. Tresloucada pelo número invariável refez os caminhos traçados desde a infância, a procura do dedo perdido. Frustrada e cansada, quando olhou de novo eram oito. Oito, ai de mim, oito! Mais um se foi no caminho. Chorou pela cissiparidade da perda e com os olhos já secos contou sete. A desigualdade entre os pés voltara. Queria correr da própria desgraça mas ao tentar, eram seis. Revezavam-se entre maiores e menores. A unha devidamente pintada, já havia sumido. Os dedos iam e ninguém lhe dava anéis. Sumiam-lhe feito pipoca na bacia de cinéfilo. Cinco. Era como se lhe faltasse um pé inteiro. Quatro. E Ana já respirava aliviada pela volta da paridade. Três e já lamuriava em francês. Ne me quitte pas. O penúltimo se foi e deixou um solitário dedão direito.
     Já se conformava com o vazio que a falta de dedos proporcionava e com a economia na pedicura. Sabia que era questão de tempo e o último cumpriria sua sina. Seria a extinção de seus dedos, o início dos seus medos e de minha pretensão de rimar. Mas o tempo passava e, tende piedade de nós, firmava o dedão insolente, indiferente ao seu destino. Se declarava resistência e quem resistia era o sofrimento de Ana. Os dias passaram e durava a presença isolada. Os anos se passaram e a pedicura cobrava mais barato ao desencravar o único dedo. Ana aprendeu – forçosamente – a matemática e a metafísica da singularidade. Agarrou-se a presença individual, como o biodefensor acode a última espécie animal. O dedão era-lhe só, que seja, mas era único.

De uma queda foi ao chão

(imagem: Erik Johansson)

Um vaso se quebrou. SCATHAPLAF! Com todo o poder da onomatopéia. Partiu-se ali em 47 partes injustas, distribuídas pelo chão. Era desenhado, o coitado. Flores, folhas, todas espatifadas. Um dos pedaços, de tamanho médio, pontas afiadas, quase um losango, riu-se de felicidade. Conquistara a liberdade que nunca sentiu. Era só, pois sim, mas era livre. Há quem se contente.
Um pedaço pequeno com uma florzinha delicada lamentou a tragédia ocorrida, mas não muito. Houve choro. Muitas peças choraram. A parte mais sábia, que preservou as brilhosas pedras cravadas, desorientou-se. Imaginem! foi parar embaixo de um sofá. No escuro que nunca conheceu sua sabedoria de nada valia. Sentia medo, mas não clamava socorro. Se os outros cacos vissem-na assim, caquética... Temia por sua reputação. Não valia a pena. Melhor era penar. Há quem se contente.
Houve quem enlouqueceu. Quem se roeu, partiu, comeu, fugiu, gritou, desesperou, pulou, dormiu, bateu, caiu, matou, amou, forjou, morreu. Houve quem se contentou. E por falar em contente, as duas pequenas asas do vaso, respeitáveis em seu brilho dourado, jamais suportariam o peso do vaso novamente. Manter-se-iam intocáveis, com direito a mesóclise. Refletiram sobre a frágil estupidez que é existência. Na altura que cada vaso suporta. Nos tombos que já haviam levado e haviam sobrevivido. Na efemeridade disso tudo. No abismo que as separava do chão e que vencer essa distância, havia lhes custado a utilidade. O consolo era óbvio, popular. Vazo ruim não quebra.

Clichê póstumo

Pablo Picasso, Breakfast of a Blind Man, 1903, óleo sobre tela.


Estou morto. Um corpo, trapo, seco. Indigente defunto que nem os abutres fazem as honras. Ser digno me bastaria, não peço nem o cúmulo de viver. Perdoai-me, senhores, por não estar vivo. Perdoai-me e livrai-me de todo o malámem, pois um morto deve ser sempre absolvido! Vejam, repugnem essa fúnebre prisão que me pregam, resgatando um pecado que não cometi. O verdadeiro pecado é não chorar um defunto. Eu bem poderia ser um morto conformado, pois sim, mas se sigo neste inflamado discurso é porque um homem que sempre reclamou da vida, não pode deixar de reclamar da morte. 
Preso nessa redoma de carne, banquete de vermes que sempre desdenhei, tenho motivos para meu delírio: Por amar demais, nem na morte tenho paz.

Átono

(Imagem: Emelia - Conrad Roset)

A vejo, gaguejo
Coloco pronome no meio de verbo
Ela é bonita feito mesóclise

Vermelho-azul

(Graham Dean, Noise, 2008, watercolour on handmade Indian rag paper signed, titled and dated on verso, 77 x 84 cm.)

Tereza é testemunha de um crime. Chora só em lembrar a cena. O homem ensaguentado, ali, na sua frente. Tereza treme. Desde o ocorrido não dormiu, nem comeu. Está pálida, fraca, quase tão morta quanto o homem. Pede a Deus para esquecer, mas ao pedir lembra outra vez. Por que ela, meu Deus? Por que? Tereza choca-se. A polícia não tardou. Tentaram socorrê-lo, mas a morte foi impiedosa. Tereza ainda vê as luzes na parede do beco, azul-vermelho, vermelho-azul, azul-vermelho, vermelho-azul. Tereza enlouquece. O relato foi preciso. Nenhum fato escondido. Entre soluços, fez questão das indecências às genuinidades. Fizera sozinha. Morrera na própria faca, o desgraçado. Tereza geme.

Dissoluta


Olhou o espelho e se viu ali, de branco, pura com pê de puta. Virgem menina que cresceu pornográfica. Jamais obscena. Uma pinta verde em um dálmata, de pequena era estranha. Nunca foi a festas. Nunca saiu de frestas. Fugia ao convencional e, por uma convenção, era esquisita. Na verdade, temia o comum, preferia a fome, a morte. Jogada às praças – agora – se via ali, se traindo. Prestes a cometer o pior dos suicídios: casar-se. Desatinada, desorientada e tabuada, não sabia o que fazer. Chorou para dentro para não borrar a maquiagem, reuniu coragem e jogou o véu no chão. Um show. Num lapso de sensatez, escolheu a si mesma.

Revel

Acho que ela não sabe... Só sabe que se trai quando se integra a essas convenções sociais. Ao mesmo tempo, não quer ser condenada ao mesmo e diferente sempre. Por alguns benefícios, pensa em fazer alguns sacrifícios. Na verdade se vê em um labirinto, meio crise de identidade, meio de cara pro novo. Não sabe mais quem é. Já soube? 

Barba Negra e a trágica 'Queda em si'

(imagem: Old - Micah Gunnel)
Era um sujeito manco. Coxo de nascença, sempre acordava com a pá virada e a virava na cara do primeiro bom dia. Praguejava, resmungava e atravessava a rua com seu lento passo trôpego. A família, não tinha. O emprego, perdera. A vida, levava. Levava, assim, como quem vai à missa, um misto de obrigação e nada melhor a fazer. O único prazer que ainda sentia era ouvir o baque de uma bola distraída em seu quintal, seguido do resmungo displicente da criança que não se atreveria a ir buscá-la.
Seu Elias, vulgarmente conhecido como Barba Negra – se pelo mancar ou pela rabugice ninguém sabia, mas barba não usava – não era dado aos inconspícuos da existência. Estava muito bem, obrigado, antes só que mal acompanhado. E odiava rimas.
Descritos os modos de Seu Elias (ainda que não da melhor forma, admito), nossa incumbência é narrar o dia em que o sol, enfadonhamente, nasceu ao leste e Seu Elias acordou com a pá direita. Direta na porta que batera e lhe pregara um susto. Praguejou, resmungou e atravessava a rua com seu lento passo trôpego quando um miúdo delinquente sob certa tábua com rodas passou, em alta velocidade, tão rente a ele que Seu Elias deu ligeiros passos – quem diria? – em recuo, acabando por pisar em uma pedra lisa e desabar lentamente no chão.
Elias, – que não é mais seu, é nosso, dada a intimidade que já adquirimos durante esta narrativa – quando se viu ileso física e moralmente (ninguém viu!), olhou para o pequeno e ignóbil célere, que também caiu perto dali, e se dando conta de quão patética era a situação, desatou gargalhadas estrondosas, tanto tempo reclusas. Riu tanto que algo dentro de si, acostumado ao amargo humor de anos, não resistiu.
Eis a sorte de Elias, quando percebeu a graça da vida, morreu de rir.

Cantiga sem ponto para amor desapontado


Amo ela
Amo assim, sem medo de cacófatos
Amo gramaticamente incorreto
Amo clichê, pé de meia, escova de dente
Amo sem dar conta, sem ponto final
Amo carta suicida de quem não teve coragem
Amo coragem suicida de quem teve

Amo muito, amo culto, amo
Amo coxo, cego e surdo
Amo inclusivo, amo, inclusive, são
Amo clemente, sem dó nem piedade

Fanzine Imaginário 2!

É pensando no aprimoramento de ideias que o Fanzine Imaginário chega a sua segunda edição. 
Tal qual na primeira, eu e outros amigos de verso tijucanos estamos estampados pelas páginas no zine.
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Evangelho de um Gentio

Meu limitado léxico vernáculo
Não descreve a crueza de minhas batalhas internas,
Internas, por tanto, meu corpo
Extenda-o alto – bem alto – como um cristo
Um risco riscado no céu.

Baladinha para a morte em mim


Sentimento me pega em cheio
Eu receio,
Chegar ao fim.

Solidão é pior no domingo
E me vingo
Cantando assim.

Canto um pouco
Um tanto
Quando canto, morro em mim.

Ponto fraco

(imagem: Ballad of Big Nothing - Aaron Jasinski)

Não consigo abrir latas, meu bem, e isso você não poderá mudar em mim. Não consigo. Deve ser patologia, sei lá. Talvez latofobia ou algo que equivalha. Sim, já tentei, a de óleo, a de leite condensado, a de sardinha. Nenhuma. É inútil. Olha se você me ama, terá que me ter assim, sem abrir latas.
Mas eu abro compotas. É que latas é meu ponto fraco. Nem com abridor, nem com faca. Não há jeito. Não é falta de força bruta, veja bem, coordenação motora também não me falta. Deve ser castigo de deus, só pode! Imagine, só, um homem desse tamanho que não consegue abrir latas! E se isso cai na boca do Fábio, do pessoal? Fale baixo! Algum vizinho pode ouvir...
Eu já tentei, amor, eu juro! Desde a adolescência eu tento. Tento fugir também, mas tem latas por todo lugar. Até de cachorro sem raça, eu tenho complexo. As latas precisam mesmo serem abertas? Existem outros tipos de embalagem, né? As pessoas é que dificultam as coisas. Eu sei, eu posso levar uma vida normal, embora em nosso país não haja acessibilidade suficiente. Sociedade excluidora, essa. Pra você é fácil falar em aceitação, você abre latas.
Eu lembro que uma vez. Não, não vou te contar isso. Não, só iria dizer da vez em que meu pai me deu uma surra para eu aprender a abrir latas. Não adiantou a surra, pai, nem as correntes de oração, mãe. O filho de vocês é mesmo um fracasso.
Hein? Segredo seu? Como assim você não descasca laranjas?

Vermelha


Lava a louça e faz comida,
Pergunta de supetão:
Benzinho, o que é a vida?

No susto, titubeio,
Gaguejo e respondo mal,
Benzinho a vida é carne,
Mas você, querida, é o sal.

(Imagem: Conrad Roset)

Não chora, Ana. Não chora que meus baldes são poucos. Não chora, guarda um pouco de mar(gor) dentro de si. A vida é assim Ana, feriado chuvoso. Não chora Ana, que o tempo passa, primeiro tripudia, sapateia e amassa, mas passa... Eu te disse Ana, amar a Arte é mais fácil que amar gente. Gente é difícil, não me meto com gente. Não beijo, Ana, eu leio. Não trepo, atuo. Eu ouço, Ana, ouço e não preciso de afago.
Você veio com aquela história de calor. Calor amolece, Ana. Cozinha. Podia ter ficado em casa, Ana. Disse que não tinha nada a perder. E perdeu Ana, me perdeu. Eu era frio, Ana, mas te cobria a noite. Te contava histórias. Eu te pedia desculpas pelo português mal dito, pelo chá muito doce, pelo livro mal escolhido. Acabou Ana, você foi e muita coisa mudou. Não disse que o tempo passa? Mas não chora, Ana, não chora que você conhece o alfabeto e eu deixei o chá no armário.
Não chora Ana, canta.

Comentaaaa, plisss???


(Eu sou melhor que você - Imagens de Iris Helena e Ieda Zaparolli com o áudio original de Moreno Veloso)
 
Escrever é o mais sórdido ato de egocentrismo. Publicar é a prova material dessa ladainha. Grande parte de quem escreve não é escritor. Eu risco meias palavras e me acho o novo gênio da literatura. Conto piada velha, chamo de microconto e ainda digo que faço uso de uma estética minimalista. Balela! E na verdade, ninguém tem mais o que dizer. Tudo já foi dito. É vaidade. Todo mundo cria um blog, todo mundo é escritor. Funciona assim: você me bajula, eu bajulo você, e quem sabe onde isso pode acabar? Ostentação, bazófia – e usar um léxico requintado é primordial – jactância.
Escrever é pentear-se.

Assédio


A vida anda me molestando,
Passando a mão e apertando.
Pulo e grito – ai! – no susto do assédio
O tamanho é médio, vá lá,
Mas a vida, querida, sabe como usar